28 de set de 2007

300 páginas de travessuras

-por Karol Felicio

Quando esse livro caiu em minhas mãos veio acompanhado de um comentário sacana que me levou a pensar “Nossa, tenho 300 páginas de uma narrativa erótica para devorar, que delicia!”. Qual não foi a surpresa quando descobri que muito mais que cenas picantes o livro discorre sobre uma história de amor num cenário que te leva a uma verdadeira retrospectiva cultural pelo mundo e pelo tempo.

Não é uma historinha romântica, água com açúcar, é um romance de amor que foge do lugar-comum justamente por ser mais real do que muitos romances literários.
O personagem principal Ricardo, um homem sem grandes ambições, narra em primeira pessoa, a sua vida, tendo como ponto de foco seu grande amor, uma aventureira, fria e manipuladora que muda de nome e de marido de acordo com seus interesses. Arrisco dizer que, guardadas as devidas proporções, Lily (seu primeiro nome) é a caricatura de um tipinho de mulher bem comum nos dias atuais.

O romance começa na infância de “Ricardito” com a “Chilenita”, no Peru, e é marcado por encontros e desencontros no decorrer de quatro décadas. Na Paris revolucionária dos anos 60; na Londres recheada de drogas, cultura hippie e amor livre dos anos 70; na Tóquio dos grandes mafiosos; e na Madri de transição política nos anos 80. Portanto mais que uma conturbada história de amor a narrativa retrata um panorama de transformações, sócio-político-culturais, da América Latina e da Europa, interessantíssimo.

O amor de “Travessuras da menina má” é doloroso e turbulento e mostra como um homem pode ficar nu, despido de qualquer dignidade, pudor e amor próprio em nome de uma mulher. Ao mesmo tempo como uma mulher pode passar por cima de qualquer valor em nome de dinheiro e status.

O autor insere com grande sensibilidade as tramas e os personagens secundários na história e faz com que o leitor se identifique e se compadeça com eles também.

Ler essa narrativa traz à tona sentimentos diversos. A leitura é ágil, moderna, empolgante, angustiante, excitante, envolvente, cômica, triste, dolorida e prazerosa. Assim que o livro acaba, e passa a sensação de choque, dá vontade de voltar e ler tudo novamente.

SOBRE O AUTOR
Mário Vargas Llosa é jornalista, dramaturgo, ensaísta, crítico literário e um escritor consagrado internacionalmente. Nasceu em Arequipa, Peru, em 1936 e mudou-se para Paris nos anos 60. Já lecionou em diversas universidades americanas e européias e transitou pela carreira política candidatando-se a presidência do Peru em 1990, mas perdendo para Alberto Fugimori. O autor vive entre Londres, Paris, Madrid e Lima.

Dentre a vasta produção literária destacam-se alguns romances como Conversa na Catedral, Pantaleão e as visitadoras, Tia Júlia e o escrevinhador e Cartas a um jovem escritor.


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