20 de ago de 2008

...e quero assim

- por Karol Felicio

Quero alguém que decifre as minhas músicas
Que desvende os meus segredos
E venere os meus mistérios

Alguém para estancar todo esse sangue
a sensualidade contida e esse desejo que verte
e não encontra calhas onde escoar

Quero que percorra meus sons com os dedos
Que adentre essas cavernas
Que descubra esses caminhos

Alguém que termine as minhas deixas
Que, a cada frase que irrita, me complete
E a cada poro que grita, me liberte

Quero bom dia e a vontade de querer o dia inteiro
Quero gosto e quero cheiro
Quero toque e quero pele

Mas não quero tudo assim, exposto
Eu quero em partes, em etapas
E também não quero parte
Eu quero alguém. E quero inteiro.

10 de ago de 2008

Horário de almoço

- por Karol Felicio

E vem assim sem nem licença pedir
Me olha assim
Como me fosse despir
As borboletas do estômago...
Chego a senti-las
Do estômago ao corpo inteiro
À flor da pele
E desconcerto
Mil mãos eu tenho e não sei onde enfia-las
E mil direções onde meu olhar não pára
Me dói o peito
De querer ficar mais
Mais um segundo
E já se vai
E esses minutos diários já não me bastam
E esses encontros casuais...vitais
Sem saber sua voz
- nem mesmo seu nome fala –
Mas a mão esquerda pesa
Não sei se por amor ou fardo
[E me dói mais]
Como posso senti-lo tanto
E não posso tocá-lo?

1 de ago de 2008

Indigesto

- por Karol Felicio

Pobre da poesia que nasce na morte do amor
E daquela música que sorria
e agora toca e dói
Aquela foto que rasga e sangra
e aquela cama que chora e chora


Pobre do poeta que se alegra com a arte que faz
do estrago do seu próprio amor
Pobre do leitor, que admira a dor, mastiga as vísceras do poeta,
essa tristeza indigesta, engole num copo d’água,
fecha a tela, vira a página, sai, e nem olha para traz


Pobre dessa gente, por toda parte, que se ressente
A garota que dobrou a esquina, o moço que fechou a porta e afrouxou o nó da gravata,
Aquela senhora que passa, aquele menino que cala
Se quiser alegria dirija-se ao guichê ao lado
E tudo isso é matéria prima, vai dar à luz a algumas linhas, que, por hora, nem da gaveta saem

A gente produz muito lixo, anda descalço no esgoto
A gente faz amor com a peste, para nascer algo que preste
E às vezes a gente joga pérolas aos porcos
A gente escreve
E espera que alguém goste, ou que alguém deteste
Mas espera que alguém leia.