- por Karol Felicio
Abri minhas portas para Cecília Meirelles e abriguei-a sobre minha cabeceira. Só então consegui enxergar a minha horta, murcha, e perceber que o impulso cego de regá-las diariamente e a todo instante já não lhe devolveriam à vida.
As minhas folhas, há tempos definhando, semimortas, secas, tortas. Minha raiz de tanta água , apodrecera. O sol queimava forte. Tudo era demais para mim. Era muita água e pouco nutriente. Era muito pouco consistente.
Dos meus olhos um filete de água queria sair e as comportas que eu construí já não poderiam suportar. Sabia-me que um rio estava por vir.
Meus pés sobre as folhas secas caminhavam a divertirem-se com os barulhos, rindo da própria desgraça, em círculos.
Nos meus cabelos verdes, pragas. E eu, sem dó, me despetalava. Sangrava pelos meus próprios espinhos, com as raízes fincadas num vaso, apertado, muito prestes a ruir.
30 de abr. de 2011
Outono em mim
por
Filhas da Pagu
Arquivado em:
Cecília Meirelles,
Outono,
Plantas,
Poesias
6
leitores comentaram. Comente também!

Assinar:
Postagens (Atom)